No fim do banho matinal olhei-me ao espelho e pensei: uma noite de insónia estraga qualquer um. Sorri sem vontade. Tinha passado a noite em passos sem volta oriundos do Elogio da Loucura, um clássico do século XVI escrito por Erasmo de Roterdão (amigo de Thomas Morus) onde se podem encontrar páginas de irreverência quase sarcástica e que permanece tão actual como no dia em que saiu: “..., se os tumultos inúmeros dos mortais pudessem ser observados da lua,..., julgaríeis ver milhares de moscas e de mosquitos envolvidos em rixas, guerras, insídias, rapinas, ludíbrios, lascívias, nascimentos, quedas e mortes. Não acreditaríeis nas perturbações e nas tragédias causadas por um animalzinho destinado a morrer”.
Será o sapiens comum salvador deste mundo que abriu portas e janelas à mais mísera loucura? Tudo é permitido neste planeta. Vemos aviões de passageiros derrubar arranha-céus; mísseis de cem milhões de dólares bombardearem mendigos, cabras e crianças; esporos de gado semearem o pânico nos labirintos dos capitólios, políticos envaidecidos aclararem a voz para exprimir simplicidades arruinadas; intelectuais com cérebro de migalha desfiarem pensamentos ao serviço do patrão que lhes paga. Quem nos vai retirar desta encruzilhada? Teremos que ir para um não-sítio, espaço alternativo para a deserção? Será o simpático padeiro, o condutor de autocarro, a caixa de supermercado, o trabalhador simples e eficaz, todos esses onde notamos uma energia misteriosa quando entregamos a nossa mão. Mas temos que estar tão vivos como eles. São esses que depois de sete palmos de terra ressuscitam ao sétimo dia, abandonam a sepultura como Lázaro, sacodem o pó e regressam à rua com uma nova alma. Os outros… enchem os restaurantes, dançam nas discotecas, tocam as buzinas nos engarrafamentos, gritam nos estádios e discutem no parlamento. Estão mortos, ainda que não tenham sido enterrados. “Enfim, qual seja o lado para que te vires, pontífices, príncipes, juízes, magistrados, amigos, inimigos, todos procuram o metal sonante; todos fogem do sapiente que despreza os mais apetecidos bens.”
A superioridade da nossa cultura ocidental pode ser uma "blasfémia", sobretudo quando encaramos uma personalidade ilustre como Omar Khayyam, poeta persa do século XI e exemplo paradigmático da poesia universal. Paço a transcrever e desculpem a tradução:
Quando tivermos partido sem deixar nenhum rastro
o sol não modificará suas leis e ciclos
já viveu sem nós inúmeros séculos
e não é para nosso deleite que brilha o ardente astro.
A terra é um mosaico de deusas e crenças
de clérigos, profetas, livros sagrados e textos
impiedade, fé, pecado, são só pretextos
que os homens invocam para lutar como feras.
Ao mundo me trouxeram sem meu consentimento
e os olhos abri com surpresa infinita
partirei depois de repousar um tempo
sem saber a razão de minha entrada e saída.
Em mesquitas e igrejas, buscando a verdade
falei com xeques, santos, filósofos e sábios
escutei as sentenças que surgiram de seus lábios
e saí pela porta que utilizei ao entrar.
Podemos viver sem pecar, oh infelizes mortais?
Que coração está limpo de maldade ou malícia?
Mas se Deus me castiga por causa de minhas maldades
tão mau como eu será o Deus que castiga.
Quando alguém vê, sente, escuta, cheira e ouve algo que os outros, nas mesmas circunstâncias, não partilham, costuma dizer-se que essa pessoa está sob o efeito de uma experiência alucinatória, ou então que está completamente louca. As causas podem ser múltiplas ou nenhuma: drogas, stress, medo, desordem orgânica ou desequilíbrio neurotransmissor. Desde sempre que se procura uma explicação para o como e o porquê das vozes inexplicáveis e visões sobrenaturais e, a não ser casos muito específicos e concretos, as respostas são sempre insatisfatórias. Existe uma dificuldade evidente em conhecer e definir estas presumíveis patologias alucinatórias a que ninguém é imune, seja qual for a sua saúde e cultura.
Kierkegaard dizia que a angústia é o temor do que se deseja ou medo simultâneo da vida e da morte. Seremos fantasmas que se relacionam com os outros como num teatro de sombras de passos vacilantes? Desconhecemo-nos a nós mesmos como desconhecemos os nossos semelhantes e estabelecemos as nossas relações sobre frágeis e tremerosas pontes levadiças.
Só um esforço teimoso e persistente e escutando as vozes menosprezadas de sabedorias milenares ou a brusca irrupção de uma estrela luminosa, que se pode seguir a uma crise pontual e imprevista, poderá levantar os espessos estores guardadores do nosso sono ligeiro. Abrimos os olhos e quase cegamos, despertos (como na caverna platónica); tomamos consciência de nós e do resto do mundo, antes tão fugidio; o sentir e o pensamento entram em estado de fusão; as erróneas torpezas da emoção e da percepção tornam-se óbvias; saímos da nossa pequena, doméstica e obediente razão como de uma prisão resignada; e estamos em campo aberto com a grande luz indescritível, com o fulgurante tesouro da realidade real, e com o Eu inequívoco que esperava lá fora desde o início.
Ou continuamos a preferir a dentada na maçã anestesiadora da bruxa má e adormecemos tranquilos e inconscientes num sono hipnótico e letárgico?
Em inícios do século XXI e depois das atribuladas passagens de milénio e século (duas vezes) e confrontado com os apocalipses diários não resisto a citar um livrinho escrito em 1898 por um escritor maldito e votado ao esquecimento - Oskar Panizza – e que é exemplo único e superior do melhor em sátira política: “Teremos nós de continuar a tolerar isto? Teremos nós que admitir que apareça um indivíduo qualquer, com a sua importância pessoal, com a cabeça cheia do seu bocadinho de fermento espiritual, com a sua pitada de miolos, e venha envenenar as massas e deseducá-las para a desobediência ao Estado? Hoje, quando os governos dispõem de medidas repressivas e o intelecto monárquico guiado por Deus dispõe de informações suficientes para aniquilar com um parágrafo, de um só golpe, todos estes pequenos arruaceiros, este diiminorum gentium, estes pequenos espíritos sequiosos de produzir qualquer coisa do alto das cagadeiras em que se montam? (...) Nós, que sabemos que basta que estas ideias sejam pronunciadas, apresentadas numa assembleia, impressas em papel, para que fiquem a roer continuamente (a roer por mais tempo que o bicho desse mesmo papel) e transmitem a sua influência aos séculos que se seguem. (...) Que dirão de nós os séculos vindouros? Que não usamos o aparelho burocrático como espremedor de limões para aniquilar todos aqueles que pensam fora da ortodoxia do Príncipe. Chamar-nos-ão alguma vez «os Grandes»? Nunca! “
Olhei a banheira. Retirei o tampão e vi a água que me tinha lavado entrar em rodopio afunilante e barulhento. Pouco depois não restava nada. Floresciam umas gotas no meu corpo. Peguei na toalha.