À procura das cruzes
Amin Malouf, escritor de origem libanesa a viver em França desde 1976, faz estas observações no epílogo do seu livro “As cruzadas vistas pelo Árabes”, editado em 1983. São 23 aninhos.
“Enquanto para a Europa Ocidental a época das cruzadas era o despontar de uma verdadeira revolução, simultaneamente económica e cultural, no Oriente estas guerras santas iam desembocar em longos séculos de decadência e obscurantismo. Assaltado por todos os lados o mundo muçulmano ensimesma-se. Ele volveu-se suspeitoso, defensivo, intolerante, estéril, outras tantas atitudes que se agravam à medida que prossegue a evolução planetária, relativamente à qual se sente marginalizado. O progresso é, doravante, o outro. O modernismo é o outro. Dever-se-ia a própria identidade cultural e religiosa repudiando este modernismo que o Ocidente simbolizava? Dever-se-ia, pelo contrário, enveredar resolutamente pela via da modernização correndo o risco de perder a identidade? Nem o irão nem a Turquia, nem o mundo árabe lograram resolver tal dilema; e é por isso que hoje em dia se continua a assistira uma alternância muitas vezes brutal entre fases de ocidentalização forçada e fases de integrismo exagerado, fortemente xenófobo.
Simultaneamente fascinado e apavorado por esses Franj [ocidentais] que ele conheceu ainda bárbaros e venceu, mas que, desde então, conseguiram dominar a Terra, o mundo árabe não pode resolver-se a encarar as cruzadas como um simples episódio de um passado enterrado. Ficamos frequentemente surpreendidos ao descobrir até que ponto a atitude dos árabes, e dos muçulmanos em geral, com respeito ao Ocidente continua ainda hoje influenciada por eventos que julgaríamos terem visto o seu termo há sete séculos.
Ora em vésperas do terceiro milénio, os responsáveis políticos e religiosos do mundo árabe referem-se constantemente a Saladino, à queda de Jerusalém e à sua retomada. Israel é assimilado, tanto na acepção popular como em certos discursos oficiais, a um novo estado cruzado. (…)
Num mundo muçulmano perpetuamente agredido, é impossível impedir a emergência de um sentimento de perseguição que adquire em certos fanáticos, a forma de uma perigosa obsessão: acaso não vimos todos, a 13 de Maio de 1981, o turco Mehemet Ali Agcar disparar sobre o papa depois de ter explicado numa carta: Decidi matar João Paulo II, comandante supremo dos cruzados. Para além deste facto individual, é óbvio que o Oriente árabe continua a ver no ocidente um inimigo natural. Contra este, qualquer acto hostil, seja ele político, militar ou petrolífero, não é mais que legítima desforra. E não podemos duvidar que a fractura entre esses dois mundos data das cruzadas, ainda hoje encaradas pelos Árabes como uma violação”
Simultaneamente fascinado e apavorado por esses Franj [ocidentais] que ele conheceu ainda bárbaros e venceu, mas que, desde então, conseguiram dominar a Terra, o mundo árabe não pode resolver-se a encarar as cruzadas como um simples episódio de um passado enterrado. Ficamos frequentemente surpreendidos ao descobrir até que ponto a atitude dos árabes, e dos muçulmanos em geral, com respeito ao Ocidente continua ainda hoje influenciada por eventos que julgaríamos terem visto o seu termo há sete séculos.
Ora em vésperas do terceiro milénio, os responsáveis políticos e religiosos do mundo árabe referem-se constantemente a Saladino, à queda de Jerusalém e à sua retomada. Israel é assimilado, tanto na acepção popular como em certos discursos oficiais, a um novo estado cruzado. (…)
Num mundo muçulmano perpetuamente agredido, é impossível impedir a emergência de um sentimento de perseguição que adquire em certos fanáticos, a forma de uma perigosa obsessão: acaso não vimos todos, a 13 de Maio de 1981, o turco Mehemet Ali Agcar disparar sobre o papa depois de ter explicado numa carta: Decidi matar João Paulo II, comandante supremo dos cruzados. Para além deste facto individual, é óbvio que o Oriente árabe continua a ver no ocidente um inimigo natural. Contra este, qualquer acto hostil, seja ele político, militar ou petrolífero, não é mais que legítima desforra. E não podemos duvidar que a fractura entre esses dois mundos data das cruzadas, ainda hoje encaradas pelos Árabes como uma violação”



0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home