O Medo e a Cidade
“A irreversibilidade da exclusão é uma consequência directa, ainda que imprevista, da decomposição do Estado social, quer dizer, de um conjunto de instituições consolidadas, mas também da decomposição – se quisermos falar em termos mais eloquentes – de um ideal ou de uma experiência. A fraqueza, a deterioração e o desmoronamento desse mesmo Estado pressagiam, bem vistas as coisas, o desaparecimento das oportunidades de resgate e a supressão do direito a apelar da sentença, do mesmo modo que a dissipação gradual da esperança e o progressivo abandono da vontade de resistir. Em lugar de ser a condição de desempregado (termo que sugere um desvio da norma, um contratempo passageiro que pode e deve ser solucionado), estar sem trabalho assemelha-se cada vez mais a estar a mais, a ser-se rejeitado por supérfluo, por inútil, pois ninguém quererá dar emprego a quem esteja nessas condições, que predestinam quem as sofre a permanecer economicamente inactivo. Estar sem trabalho implica que o indivíduo deixou de ser imprescindível, até mesmo que tenha deixado de ser para sempre necessário, vendo-se desterrado para o depósito do lixo do progresso económico, progresso que, em última análise, se reduz a realizar o mesmo trabalho, mas com menos pessoal e por meio de um custo de mão-de-obra inferior.
O desempregado de hoje, sobretudo aquele que o é por um período prolongado, está a um passo de cair no buraco negro dos desclassificados: homens e mulheres que não pertencem a qualquer grupo social legítimo, indivíduos situados à margem de qualquer classe, aos quais não corresponde nenhuma das funções aprovadas, úteis e indispensáveis desempenhadas pelos cidadãos «normais», pessoas que com nada contribuem para a sociedade, excepto com o que é prescindível e não interessa. Deste modo, pouca distância separa os supérfluos dos delinquentes: os desclassificados e os delinquentes não são mais do que dois subconjuntos do total dos elementos anti-sociais.”
O desempregado de hoje, sobretudo aquele que o é por um período prolongado, está a um passo de cair no buraco negro dos desclassificados: homens e mulheres que não pertencem a qualquer grupo social legítimo, indivíduos situados à margem de qualquer classe, aos quais não corresponde nenhuma das funções aprovadas, úteis e indispensáveis desempenhadas pelos cidadãos «normais», pessoas que com nada contribuem para a sociedade, excepto com o que é prescindível e não interessa. Deste modo, pouca distância separa os supérfluos dos delinquentes: os desclassificados e os delinquentes não são mais do que dois subconjuntos do total dos elementos anti-sociais.”


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