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terça-feira, outubro 24, 2006

O Medo e a Cidade


Zygmunt Bauman é um velhinho polaco, sociólogo, que vive em Inglaterra e dá aulas na Universidade de Leeds. A Relógio d’Água publicou este ano um livrinho seu, pequenino, que se lê num instante, – Confiança e Medo na Cidade – em que analisa as razões do medo que assolam as sociedades urbanas. Na sua perspectiva, assistimos ao aumento gradual do receio (medo) de perda dos nossos bens e, ao querermos protegê-los constantemente, caímos num círculo vicioso que implica cada vez mais medo e mais insegurança.Tais medos “nasceram com a irrupção simultânea da liberalização e do individualismo, numa altura em que já se haviam tornado frouxos ou quebrado os laços de parentesco e de vizinhança que uniam com firmeza as comunidades e corporações”. A des-solidarização e a competição desenfreada – tudo é permitido - desculpam qualquer um, sobretudo aquele que sabe que cada vez pode contar menos com o auxílio da sociedade em que vive. A grande ameaça personaliza-se e o “…fantasma mais aterrador é representado pelo medo de ficar para trás.”Este ficar para trás é, nada mais, nada menos, a completa eliminação do mercado de trabalho e de qualquer função na sociedade. Cada vez se houve mais as pessoas utilizarem o discurso – importado dos estados unidos – de se referirem às outras, não como supérfluas, mas como desclassificadas. O ser humano perdeu o seu lugar no tradicional sistema de classes, foi brutalmente atirado para a margem, é situado ao lado dos criminosos e delinquentes e a sua única utilidade é recordar, aos que mantêm o seu trabalho e ainda desempenham uma função, o que lhes pode acontecer.Assistimos, hoje, ao aumento significativo de uma quantidade enorme de gente que perdeu a sua principal fonte de sustento e já não lhe é permitido a segurança que os seus pais e avós viviam. Um fosso intransponível começa a edificar-se entre os que já não vivem a esperança e os que defendem “selvaticamente” a preservação do seu estatuto e do seu trabalho. É precisamente nestes últimos que o medo adquire características demoníacas e aumenta gradualmente na razão directa da necessidade de protecção. Quanto mais protecção, mais medo.Estamos presos numa dualidade: por um lado, aquilo a que Bauman chama mixofilia – desejo de mistura com as diferenças; por outro, a mixofobia – medo e receio dos perigos que os desclassificados representam, o que leva à negação de qualquer espécie de contacto com estranhos e a uma reclusão voluntária a que já só falta a ponte levadiça para eliminar a ameaça de entrada dos bárbaros.