esculpices

quinta-feira, outubro 05, 2006

Observação

“Os excluídos não são apenas os terroristas, mas também os que dependem da ajuda humanitária (Ruandeses, Bósnios, Afegãos, …): o homo saber dos nossos dias é o objecto privilegiado da biopolítica humanitária: é precisamente aquele cuja humanidade lhe foi retirada que é alvo dos cuidados mais condescendentes. Temos portanto de reconhecer este paradoxo: os campos de concentração e os campos de refugiados construídos para distribuir a ajuda humanitária são as duas faces, a inumana e a humana, da mesma raiz sociológica.”

“Estaremos então a assistir a um renascimento da velha distinção entre direitos do homem e direitos do cidadão? Haverá direitos que se aplicam a todos os membros da humanidade (que devem ser respeitados, mesmo no caso do homo sacer) e direitos mais restringidos, específicos aos cidadãos (aqueles cujo estatuto é regulado legalmente)? E se tivéssemos, contudo, de chegar a uma conclusão mais radical? E se o verdadeiro problema não fosse a fragilidade do estatuto dos excluídos mas o facto de, ao nível mais elementar, sermos todos «excluídos», no sentido de essa posição «zero», a da exclusão generalizada, se ter tornado o objecto da biopolítica e de os direitos políticos e de cidadania só nos serem possivelmente concedidos num gesto secundário, de acordo com as considerações estratégicas do biopoder? E se este processo representasse a consequência última da noção de «pós-político». (…) na linha do poder disciplinar e do biopoder de Michel Foucault: as questões dos direitos do homem, da democracia, do papel da lei, etc., são outras tantas máscaras enganadoras que servem para dissimular os mecanismos disciplinares do biopoder cuja expressão absoluta terá sido o campo de concentração do século xx.”

“A noção totalitária de «mundo administrado», onde a própria experiência da liberdade subjectiva é a forma aparente da sujeição aos mecanismos disciplinares, não passa, em última análise, do alicerce fantasmático e obsceno da ideologia (e da prática) pública oficial da autonomia e da liberdade individual: o primeiro elemento deve ser acompanhado pelo segundo, complementando-o como a sua sombra obscena duplicada, de um modo que não pode deixar de nos lembrar a imagem central do filme Matrix dos irmãos Wachowsky: milhões de seres humanos levando uma vida claustrofóbica, imersos em berços cheios de água, mantidos em vida com o único fito de produzir energia (eléctrica) de que a Matriz precisa. Assim quanto (alguns) despertam da sua imersão na realidade virtual controlada pela Matriz, esse despertar não abre, de modo algum, para os grandes espaços da realidade exterior, mas, inicialmente, para a aterradora tomada de consciência da clausura na qual cada um de nós não passa afinal de um organismo fetal banhando no líquido amniótico...
Esta passividade absoluta é o fantasma excluído que sustém a nossa experiência consciente de sujeitos activos e autocentrados. Nesse sentido, é um fantasma perverso, na medida em que promove a ideia de que, no fim de contas, somos apenas os instrumentos do gozo do outro (da Matriz) que drena a substância da nossa vida como se fôssemos pilhas alimentando uma bateria.
Esta passividade absoluta é o fantasma excluído que sustém a nossa experiência consciente de sujeitos activos e autocentrados. Nesse sentido, é um fantasma perverso, na medida em que promove a ideia de que, no fim de contas, somos apenas os instrumentos do gozo do Outro (da Matriz) que drena a substância da nossa vida como se fôssemos pilhas alimentando uma bateria. É o enigma deste mecanismo: porque precisa a Matriz de energia humana? A resposta puramente energética é, evidentemente, inteiramente desprovida de sentido: a matriz teria podido encontrar, precisamente, outra fonte de energia mais segura, que não exigisse esse dispositivo extremamente complexo que é a coordenação de uma realidade virtual regendo milhões de unidades humanas. A única resposta consequente é: a Matriz alimenta-se do gozo humano – somos assim reenviados para tese lacaniana fundamental, segundo a qual é o próprio grande Outro que, longe de ser uma máquina anónima, precisa de um influxo constante de gozo. Esta é a maneira como é preciso inverter o estado das coisas tal como elas nos são apresentadas em Matrix: aquilo que o filme nos mostra como a cena do despertar para a nossa verdadeira condição é, pelo contrário, o fantasma primordial que sustém o nosso ser.”